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Roda da Fortuna: 200 pessoas ganham 9.095 vezes em loterias. 13/09/2004

Cada apostador teve em média 45 bilhetes premiados; ao todo, o grupo abocanhou R$ 64,8 milhões.


Chance de ganhar na Mega Sena jogando um bilhete de 6 números é de 1 em 50 milhões.
Um grupo de 200 pessoas ganhou 9.095 vezes em loterias da CEF (Caixa Econômica Federal) entre março de 1996 e fevereiro de 2002. Cada apostador desse grupo teve em média 45 bilhetes premiados -um número praticamente impossível de ser alcançado caso os jogadores não se dispusessem a gastar com apostas sempre muito mais do que ganhariam, segundo matemáticos ouvidos pela Folha. Ao todo, o grupo ficou com R$ 64,8 milhões.
Com base num primeiro levantamento do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do Ministério da Fazenda, com 30 nomes, divulgado em março de 2003, a Polícia Federal abriu em junho último cerca de 20 inquéritos só em São Paulo para investigar os sortudos.
Mas o relatório total de 228.794 premiações, ao qual a reportagem teve acesso, revela outros casos de número de premiações acima da média. Pelo menos dois casos são de parlamentares. Eles não são investigados a respeito.
O deputado federal Francisco Garcia Rodrigues (PP-AM) e seu filho acertaram 43 vezes em 21 jogos diferentes entre os anos de 1996 e 2000 (cinco jogos do deputado, 16 de seu filho). O deputado Fernando Lucio Giacobo (PL-PR), 30, acertou 12 vezes em oito jogos num único e reduzido espaço de tempo: de 5 a 19 de junho de 1997. Levou ao todo R$ 134 mil.
Numa série impressionante, Giacobo acertou em três concursos seguidos da Mega Sena, 65, 66 e 67, e em dois seguidos da Quina, 305 e 306. "Só tem sorte. E existe Deus, ele deu uma olhadinha lá e uma benzida", disse Giacobo.
Em São Paulo, um delegado da Polícia Civil venceu 17 vezes em concursos e tipos de jogos diferentes também num único e curto período: de 8 de agosto a 16 de novembro de 2001.
O delegado de Polícia Civil Luiz Ozilak Nunes da Silva, 50, da Decap (Delegacia de Capturas) da Capital teve prêmios com sete bilhetes da Mega Sena, três da Federal, dois da esportiva, dois da instantânea, dois da Lotomania e um da Supersena.
Como o deputado Giacobo, o delegado nunca havia vencido antes disso. E nunca mais voltou a vencer. Segundo ele, parou de jogar em seguida, muito embora tivesse recebido R$ 355 mil. "Eu não acredito na sorte. Eu não aconselho isso [jogar]. Cada um tem sua vida, cada um sabe o que faz com o seu dinheiro", disse.
Ele está sendo investigado na corregedoria da polícia a pedido do Ministério Público por supostos "indícios de crime de lavagem de dinheiro por meio de loterias".
Seqüências
O deputado Francisco Garcia Rodrigues e seu filho receberam R$ 811 mil em jogos federais. Num período de apenas 14 dias -26 de maio a 9 de junho de 1998-, seu filho firmou uma marca inesquecível. Venceu em três concursos seguidos da loteria esportiva, os de número 227 (R$ 22 mil), 228 (R$ 10,6 mil) e 229 (R$ 14,3 mil). Em outra seqüência, já havia acertado no 192 e no 193 (R$ 132 mil). Poucos dias antes, no concurso de número 185, seu pai havia recebido R$ 409 mil.
O deputado disse que jogava toda semana e hoje não joga mais, mas não se lembrou do endereço da lotérica em que fazia as apostas. Primeiro, disse que gastava "R$ 100, R$ 200" por semana. Depois, disse não lembrar corretamente. Após ter atribuído as vitórias ao seu conhecimento de futebol e ao volume de apostas, também disse que usava "um computador" (leia texto à pág. A16).
A chance de uma seqüência de prêmios ocorrer está perto do zero, segundo estatísticos consultados pela reportagem. Segundo eles, também "não existe" computador capaz de produzir uma fórmula que garanta uma aposta vitoriosa. Basta ver que 98,6% do total de 168.172 pessoas premiadas alguma vez entre 1996 e 2000, em todo o país e em todas as formas de jogo, acertou somente até quatro vezes.
A imensa maioria do grupo de apostadores sorteados relacionados pelo Coaf (cerca de 148 mil premiados) só foi premiada uma ou duas vezes (88% e 95,8%, respectivamente).
Fenômeno
No grupo dos 200, o líder em ganhar em loterias é um apostador paulistano que foi premiado 353 vezes (R$ 2,8 milhões).
No primeiro relatório do Coaf, a imprensa divulgou que o comerciante Amauri Gouveia havia sido premiado em 25 concursos. O relatório integral, contudo, mostra que Gouveia é um fenômeno muito maior. Ele acertou em 96 concursos da Quina, em 33 concursos na Mega Sena, em 25 da Loteria Federal e em 9 da loteria esportiva, além de outras modalidades. Até na raspadinha Gouveia impressiona: ele acertou nos concursos de número 60, 61, 64, 78, 88, 89, 90 e 91.
A freqüência de acertos de Gouveia na Quina (153 bilhetes premiados em 96 concursos) é inacreditável sob qualquer ponto de vista. Entre os concursos 501 e 529, ele simplesmente deixou de acertar em apenas dois. No resto, uma ou várias vezes, Gouveia sempre ia ao guichê de uma agência da Caixa Econômica Federal para receber seu prêmio. Como se fosse um salário semanal.
A história de Gouveia é ainda mais misteriosa quando se considera que seus dois irmãos, Alécio Pedro e Adilson, também estão entre os seis maiores vencedores da lista, com 332 e 297 premiações. Ao todo, os irmãos levaram para casa R$ 7 milhões.
A Folha comparou os números dos concursos dos três, e encontrou poucas coincidências, o que afasta a hipótese de os altíssimos números de acertos se tratarem de vitórias em bolões familiares.
Os três irmãos possuem um supermercado na Vila Nova Cachoeirinha, na periferia de São Paulo. Procurados nos últimos oito dias, responderam por meio do gerente-geral do supermercado, Edson Andrade: "Eles não têm nada a declarar. Esse é um assunto fiscal, cabe explicar ao fisco".
19 esportivas.
Há vários outros casos que chamam a atenção pela seqüência de vitórias num único período. Um apostador, identificado nominalmente pela reportagem, mas não localizado, venceu em 19 concursos da loteria esportiva somente entre janeiro de 2000 e novembro de 2001, quase sempre com valores expressivos. No dia 8 de fevereiro de 2000, ele levou R$ 399,7 mil. Catorze dias depois, papou mais R$ 36 mil.
Em março de 2001, esse apostador faturou R$ 249,4 mil na esportiva. Menos de seis meses depois, recebeu outros R$ 260,2 mil. Os jogos lhe renderam ao todo R$ 1,85 milhão.
PF suspeita de esquema para lavar dinheiro.
A principal suspeita investigada pela Polícia Federal sobre o alto número de bilhetes premiados de uma só pessoa é que as loterias estejam sendo usadas para lavagem de dinheiro.
Em linhas gerais, o esquema funcionaria do seguinte modo: o real ganhador da aposta é abordado pelo dono da lotérica ou por um integrante do esquema que descobre seu paradeiro. O bilhete é comprado por valor maior do que o prometido pela Caixa.
O bilhete passa então a ser usado por uma pessoa que queira lavar recursos provenientes de caixa dois de empresas ou de atividades ilícitas. Ao apresentar o bilhete na Caixa, ele passa a ser o premiado oficial, podendo acrescentar o valor na declaração de Imposto de Renda prestada à Receita Federal.
Assim, um eventual aumento do patrimônio seu ou de sua empresa, gerado por atos ilícitos, poderia ser atribuído à premiação.
Para investigadores ouvidos pela Folha, o esquema, se existe, pode ser desmontado com uma única e simples medida a ser tomada pela Caixa: registrar o número do CPF do jogador no ato da aposta. Isso impediria que outras pessoas apresentassem o bilhete premiado como se fosse seu e, assim, desarticularia o esquema.
Ouvida pela reportagem, a assessoria da Caixa emitiu nota na qual descarta completamente a possibilidade. A brecha para a lavagem de dinheiro por loterias continuará. Segundo a nota, a identificação do apostador seria um "retrocesso".
"Restou comprovado na época que a adoção desse procedimento é incompatível/inadequada ao sistema de loterias on-line disponível nos dias atuais, lembrando que, por ser facultativo tal preenchimento, só alguns apostadores se identificavam no verso dos volantes."
Ainda de acordo com a Caixa, a medida poderia "prejudicar" o comércio de jogos lotéricos.
"A introdução da condição de identificação obrigatória do apostados é prejudicial às vendas."
Chance de ganhar jogando bilhete de 6 números é de 1 em 50 milhões.
Ganhar na Mega Sena acertando seis números é improvável, mas não impossível. Afinal, alguém sempre ganha, apesar de a chance de um apostador que joga um bilhete com seis números ser de 1 em 50 milhões.
Ganhar com o mesmo bilhete na quadra já é mais fácil. Uma chance em 2.332.
Difícil de imaginar? Se fosse possível obter um objeto com 2.332 lados iguais, jogá-lo para o alto e apostar que lado ficaria numa posição determinada, seria mais ou menos como apostar na cara, sabendo que em 2.331 lados há uma coroa.
Imagine que você acerte logo na primeira vez em que joga este estranho objeto. A chance de você acertar na segunda jogada já seria de 1 em nada menos do 5 milhões. Algo muito improvável, mas não impossível.
Ganhar muitas vezes na quadra não é tão difícil, principalmente quando se trata de um jogador viciado, que não se importa em gastar sempre centenas ou milhares de reais pra ganhar vez ou outra pouco mais de R$ 200 ou R$ 300. Algo provável, mas não muito inteligente.
Não é a toa que as pessoas que ganham muito freqüentemente estão sendo investigadas. A loteria é feita de uma maneira que torna impossível usá-la como uma espécie de investimento -algo como apostar na Bolsa.
A Bolsa, apesar de levar muitos à bancarrota, ainda tem alguma lógica e permite que os investidores prevejam o que vai acontecer.
Num sorteio da Mega Sena, existem nada menos do que 50.063.860 combinações possíveis de sena. Cada sorteio é um novo jogo, no qual o resultado anterior não tem nenhum efeito.
A história não ajuda a ganhar na Mega Sena. O ex-deputado João Alvez, ganhador contumaz, dizia que Deus ajudava.

Caixa diz informar Fazenda sobre vencedores.
Banco afirma não ter como evitar venda de bilhete premiado, mas declara orientar lotéricos contra a prática.
A Caixa Econômica Federal informou, em nota, que parte dela a iniciativa de enviar as informações sobre vencedores de loterias ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do Ministério da Fazenda.
O conselho tem encaminhado à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal listas de vencedores para análise e eventual abertura de investigações criminais.
O banco cumpre uma resolução do Coaf. "Dados sobre pessoas possivelmente envolvidas nesses tipos de irregularidades são oriundas de nossas informações, que servem de subsídios para a atuação dos órgãos competentes nas investigações de prática de crime de lavagem de dinheiro com prêmios das loterias federais, com vistas a aplicar as penalidades previstas na lei, inibindo tais práticas", diz a nota da Caixa.
Segundo o banco, os dados dos vencedores são passados diariamente ao Coaf, "como subsídio à análise de provável indício de crimes de lavagem de dinheiro".
A instituição também faz um controle interno, por meio do Sistema de Prevenção de Lavagem de Dinheiro, que recebe os dados do setor lotérico "e analisa os dados, identificando indícios de irregularidades, como por exemplo, CPF com registro de vários prêmios ou prêmios significativos ligados a um único CPF, após o que o arquivo é repassado à página daquele conselho [Coaf]."
O banco afirmou ser inviável a identificação do jogador no ato da aposta, o que poderia impedir a possível venda de bilhetes premiados. De acordo com o banco, há uma preocupação em evitar a venda de bilhetes premiados.
"A Caixa, por meio de publicações dirigidas à rede de lotéricos, reforça procedimentos para a prevenção ao crime de lavagem de dinheiro, na busca da conscientização do empresário lotérico da importância do assunto, tipificando o crime e orientando-os a identificar atitudes suspeitas."
A Caixa se referiu às possíveis fraudes como pequenas, diante do montante de prêmios distribuídos anualmente. Como comparação, disse ter pago R$ 750 milhões por bilhetes premiados no primeiro semestre de 2004.
O presidente do sindicato dos lotéricos de São Paulo, Luiz Carlos Peralta, defendeu o sistema de loterias no país. Ele afirmou "não ter nenhuma dúvida" de que o sistema de sorteios propriamente dito é imune a fraudes. Sobre as possíveis vendas de bilhetes premiados ou outras técnicas de lavagem de dinheiro "extra-sorteio", Peralta disse que cabe ao Coaf e à Polícia Federal investigarem. "Não se pode colocar em xeque toda uma categoria [os lotéricos] se alguns estão agindo de forma ilegal", disse Peralta.
O presidente do sindicato mencionou o caso do ex-deputado federal João Alves (BA), cassado em 1993 por envolvimento com a máfia dos Anões do Orçamento. Na época, Alves atribuiu seu patrimônio à uma série de "200" bilhetes premiados nas loterias. Segundo Peralta, isso foi possível porque o ex-deputado "jogava várias vezes", gastando mais até do que o próprio prêmio.

Delegado que ganhou 17 vezes diz ser "ex-viciado".
O delegado da Polícia Civil de São Paulo Luiz Ozilak Nunes da Silva está sob investigação na Corregedoria após ter vencido 17 vezes em jogos da Caixa num único espaço de três meses -entre agosto e novembro de 2001.
Em entrevista à Folha, defendeu-se da suspeita. (RV)

Folha - O sr. já foi ouvido formalmente pela Receita?
Luiz Ozilak Nunes da Silva -
Na Receita eu já fui investigado. Sobre esse assunto. O procedimento que tem é na Corregedoria da Polícia. Tudo o que eu tenho está declarado, conforme a legislação.
Folha - A que o sr. atribui ganhar 17 vezes num só ano?
Ozilak -
Não, não foram 17 vezes num único ano. Foi assim. Foi. Mas são assim, as várias vezes que foi jogado. Muitas vezes foi jogado, você entendeu? É isso.
Folha - O sr. atribui esses prêmios ao volume de apostas que o sr. faz?
Ozilak -
É isso.
Folha - Quantas vezes o sr. apostou?
Ozilak -
Ah, inúmeras. Em cavalo, de tudo. Olha, vou falar a verdade pra você, fui viciado nisso. O governo não tem um programa de auxílio, porque você sabe que é um vício. Eu, graças a Deus, praticamente saí fora disso, fiquei um ano, assim, fazendo tratamento psicológico, perdi minha família, tudo.
Folha - Quanto o sr. jogou no ano de 2001?
Ozilak -
Ah, eu nunca joguei muito [em valor], sempre eu jogava o mínimo. Mas não posso afirmar quanto.
Folha - Para o sr. receber R$ 356 mil...
Ozilak -
Acho que é isso.
Folha - ...gastou quanto?
Ozilak -
Acho que alguns mil reais. Eu não sei se R$ 10 mil ou R$ 15 mil.
Folha - Dez ou R$ 15 mil?
Ozilak -
É, eu não posso afirmar isso. Mas deve ser.
Folha - Há muito tempo o sr. joga?
Ozilak -
Jogo, jogava, né.
Folha - Quando o sr. parou?
Ozilak -
Eu parei há cerca de um ano, porque estou fazendo um tratamento psicológico com uma pessoa. Porque, além de ferrar a saúde sua, sabe, acabou a vida social, você só pensava nisso. Esses dias parei numa raspadinha, você vê o que é a recaída, comprei acho que 15 ou 20 da raspadinha. Além de cansar, falei, "porra, tô voltando outra vez nisso aí".
Folha - O sr. joga desde quando?
Ozilak -
Desde que a vida com a minha família começou a ruir, há uns cinco anos.
Folha - Pelo levantamento, o único ano em que o sr. recebeu foi em 2001.
Ozilak -
É, pelo levantamento foi isso.
Folha - Quer dizer, sua sorte está concentrada num só ano.
Ozilak -
Não, isso aí eu nem atribuo à sorte. Eu atribuo a, sei lá, ao volume de jogo.
Folha - O sr. joga desde 1996, sempre, e só recebeu em 2001.
Ozilak -
Para você ver o que eu joguei fora. Você precisa ver a quantidade... Por que eu recebi? Porque tinha dois caras que ficavam conferindo. Quantas vezes comprei bilhete, em restaurante, um monte de bilhete, e nunca conferi. Depois que eu conheci esses dois velhinhos sabe, eles ficavam, eu ia lá com eles, comprava, eles ficavam [conferindo]...
Folha - O sr. admite que o volume de prêmios é anormal?
Ozilak -
Eu admito o volume de jogo e o negócio de conferir. Só isso.
Deputado federal, que com o filho recebeu R$ 811 mil em prêmios, diz que "desdobrava" fórmula em computador.
Sortudo afirma ser "apostador de futebol"

O deputado federal Francisco Garcia Rodrigues (PP-AM), 54, e seu filho são dois dos mais felizardos apostadores dos jogos federais. Entre 1996 e 1998, eles receberam juntos R$ 811 mil. Tiveram 43 bilhetes premiados em 21 concursos diferentes, principalmente na loteria esportiva federal. O deputado atribui sua sorte ao "envolvimento" que tinha com futebol e ao uso do "computador". A seguir, a entrevista. (RV)

Folha - Segundo o levantamento da Receita e do Coaf, o seu nome e de seu filho aparecem como ganhadores várias vezes das loterias...
Francisco Garcia Rodrigues -
[Interrompendo]Quando foi isso?
Folha - O período em que o sr. ganhou? O sr. não se recorda de ter ganho?
Rodrigues -
Eu não, eu quero ir atrás desse prêmio, por isso que estou perguntando [rindo].
Folha - O sr. confirma seu CPF?
Rodrigues -
Não, me dê o valor e o mês que eu te digo. Porque eu quero ir atrás, tu estás com o documento, eu quero ir atrás.
Folha - Março de 97, outubro...
Rodrigues -
Ah, isso daí já faz tempo. Está na declaração nossa [de Imposto de Renda]. Isso daí tu tiras da declaração. Pensei que fosse agora. Pegue na minha declaração de 97 que tem. Loteria esportiva, né? Mas são prêmios pequenos.
Folha - O total deu em torno de R$ 450 mil.
Rodrigues -
O quê? Mas em quantos anos?
Folha - 96, 97...
Rodrigues -
É que teve um prêmio grande. Exatamente. Aí depois joguei cinco semanas seguidas, perdi e parei de jogar. Pensei que tinha um prêmio novo em meu nome. É quando eu estava no Rio Negro, com um clube, a gente estava envolvido em futebol, aí jogava na loteria esportiva.
Folha - O sr. foi presidente do Rio Negro?
Rodrigues -
Não, fui presidente do Ideal Clube, mas o Rio Negro era o meu time. Os prêmios são pequenos, só um que é grande. A gente jogava toda semana, cento e poucos reais. Aí não deu, passou cinco semanas sem acertar, nós paramos de jogar. Também a loteria... Você joga, o governo fica com 67%. Aí não é mais negócio para o jogador. Quando eu fui ver, fazer a análise. Pô, o governo te leva tudo. O jogador leva 30 e poucos por cento só. Aí parei.
Folha - No período 96-97, o sr. teve um ótimo desempenho, acertou várias vezes. A que o sr. atribui esse desempenho?
Rodrigues -
Ah, eu acompanhava os jogos. Você, para fazer uma reportagem, não precisa dominar o assunto? Eu estava acompanhando o esporte.
Folha - Para um apostador se dar bem na loteria, ele precisa acompanhar o esporte, que vai acertar várias vezes?
Rodrigues -
Claro. Para qualquer negócio. Mas você precisa ter sorte também. Agora, se você vê que o negócio pode te dar prejuízo, aí você não joga. Quando eu caí na realidade, que o governo ficava com 67%, eu digo, não, meu dinheiro, não, eu quero jogar para ganhar, não para perder.
Folha - Pelo levantamento, o seu filho também foi muito bem no período.
Rodrigues -
Oi?
Folha - Seu filho, ele acertou várias vezes.
Rodrigues -
Ah, mas ele joga, joga bola. Futebol. Parou também porque você perder toda semana R$ 200, R$ 250, chega no final do mês você perdeu mil e poucos reais. Aí não é negócio. A gente fazia um jogo que era uma fórmula: a cada quatro tinha que acertar um. Tinha um desdobramento que o sujeito fazia, para poder cercar e ter mais chances. Você desdobrava no computador uma fórmula que você fazia quatro duplos e acertando um duplo, você matava os quatro. Coisa de doido mesmo, apostador de futebol.
Folha - O seu filho também parou de apostar?
Rodrigues -
É claro, claro. Aqui nós temos uma concessionária Chevrolet, em Manaus, uma Citroen, temos jornal, televisão, nós somos concessionários do João Saad [Rede Bandeirantes] em Manaus há 30 anos. Por que eu teria de ficar jogando?
Folha - O sr. gastava quanto por ano com os jogos?
Rodrigues -
Rapaz, eu não sei te dizer. Pela fórmula dava uns R$ 400, R$ 500 por semana. A gente jogava toda semana. A gente ganhou mais do que jogou. Porque você tem que fazer o cálculo do dinheiro que você deixou lá atrás. Porque fica como lucro seu. Porque, de qualquer jeito, você jogando no final do ano R$ 20 mil, tá, aí você ganha R$ 50 mil. Aí você ganhou R$ 50 mil mais o Imposto de Renda que está na fonte. Mas quando tu começas a perder na seqüência, tu só insistes se for burro. Porque o azar começa a bater na sua porta.
Folha - O sr. não recomenda que as pessoas continuem jogando?
Rodrigues -
Não, com essa taxa de imposto que o governo está fazendo, não é negócio. Negócio é jogar no bicho, como diz o cabra. Porque o bicho só te tira 20%. O camarada, pô, vai jogar R$ 100 para ganhar R$ 35, onde se viu um negócio desses?
Folha - É um mau negócio?
Rodrigues -
É um mau negócio. O governo, para melhorar a loteria esportiva, devia baixar as taxas de impostos.
Folha - Mas deputado, o sr. e seu filho ganharam quase R$ 1 milhão, como é um mau negócio?
Rodrigues -
Não, não, você deve estar com o número errado. Se você puxar a declaração de Imposto de Renda, vai ver o número certo. Você deve ter aí.
Folha - E quanto foi?
Rodrigues -
Ah, não posso te dizer agora. Eu quero que você puxe a declaração de Imposto de Renda, lá está certinho, porque é o contador da empresa que faz, e toda vez que ganhava na loteria eu deixa lá pra ele o canhoto. Até para ganhar o imposto. (...) Do jeito que você está colocando. É chato, você está duvidando, como se eu nunca tivesse jogado na loteria. Como aconteceu, o caso do João Alves [ex-deputado que disse ter ganho 200 vezes na loteria]. Sou comerciante, empresário há 40 anos. Você pesquise, vai à loteria onde eu fazia meu jogo toda semana, e veja primeiro.
Folha - Onde o sr. apostava, como era o nome da lotérica?
Rodrigues -
Ah, não sei o nome.
Folha - Não lembra também?
Rodrigues -
Não lembro, não... Era a loteria na 10 de Julho, na rua 10 de Julho, lá funcionava. O nome eu não sei. Não lembro. Isso faz oito anos.
Deputado diz que teve sorte e ajuda de Deus.
O deputado federal Fernando Lucio Giacobo (PL-PR), 34, recebeu R$ 134 mil em 12 vitórias em prêmios diversos da Caixa num período de apenas 14 dias, em junho de 1997. Segundo ele, foi Deus quem olhou para ele e o ajudou. A seguir, trechos da entrevista. (RV)

Folha - No ano de 97, o sr. venceu 12 vezes em jogos diversos...
Fernando Lucio Giacobo -
É.
Folha - A que o sr. atribui essa seqüência de vitórias?
Giacobo -
[Rindo] O que que você acha?
Folha - Não tenho a mínima idéia.
Giacobo -
Tem como atribuir [a algo diferente] quando o cara ganha num sorteio alguma coisa?
Folha - À sorte?
Giacobo -
Ué, só tem isso né, tchê. Só tem sorte. E Deus, ele deu uma olhadinha lá e uma benzida. Eu não joguei mais, isso foi há muito tempo. Se você somar todos os bilhetes, não dá R$ 100 mil.
Folha - Deu R$ 134 mil.
Giacobo -
É uma fortuna, né, tchê, perto do que Maluf rouba e os outros fizeram aí.
Folha - Por que motivo o sr. resolveu parar de jogar?
Giacobo -
Eu nunca parei... Eu até jogo, mas não jogo mais com freqüência, não jogo mais na loteria esportiva, só jogo na loto.
Folha - Na época o sr. jogava quanto?
Giacobo -
Não me lembro, chefe. Faz tantos anos, né, faz quantos anos isso, companheiro?
Folha - Em 1997.
Giacobo -
Para você ter uma idéia, eu não era nem filiado a partido nenhum.
Folha - O que chama a atenção é que tudo ocorreu num único mês, em jogos diversos. O que ocorreu neste mês preciso?
Giacobo -
Rapaz, deve ter sido um mês que eu devo ter jogado bastante. Você vai lá, consulte a Caixa, manda a Polícia Federal averiguar se o jogo não é quente, aí você me liga se não for.
Folha - O sr. costumava jogar em que lotérica nessa época?
Giacobo -
Não me lembro.
Folha - Não se lembra também.
Giacobo -
Sete anos atrás. Mas eu não estou entendendo por que você está... Só por que eu sou político você quer averiguar isso?
Folha - É pelo volume num curtíssimo espaço de tempo.
Giacobo -
Ah, mas você não acha que é muito dinheiro? Eu quero saber se chama a atenção R$ 130 mil para você.
Folha - Acho que é muito acima de um salário mínimo.
Giacobo -
Se alguém for roubar, para ganhar R$ 130 mil é muito pouco, né?
Folha - O sr. acha que acima de quanto seria muito?
Giacobo -
Não, o cara que vai roubar, vai fazer alguma coisa, por causa de 130 pilas? Não estou dizendo que é pouco. Roubar um centavo é muito.
Folha - O sr. acertou no dia 5 de junho, 17 de junho, 19 de junho, às vezes duas vezes num mesmo dia com dois jogos diferentes...
Giacobo -
Pura sorte, hein. Pura sorte. Juro por Deus. Eu sou um cara de muita fé.
Folha - Na hora do sorteio, o sr. se valeu de algum método...
Giacobo -
[Interrompendo] Mas como é que vai valer? Você acha que um cara da Caixa vai se sujar, vai querer comprar... Se você souber de alguém que consegue comprar o resultado, você me fala que nós vamos denunciar para a polícia. Você acha que eu vou querer fazer isso para roubar R$ 130 mil? Não faço nem por um centavo.
Folha - A pergunta é se o sr. se valeu de um método para jogar.
Giacobo -
Ah, nenhum. Só sorte. Bolão, bolão. Eu não me lembro.

Folha de São Paulo - RUBENS VALENTE -  Colaborou MARCELO BILLI, da Reportagem Local


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